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SUICÍDIO – MATANDO O SOFRIMENTO

Neste artigo será abordado o polêmico tema suicídio. Será apresentada diversas informações sobre um assunto tão importante e delicado. É preciso ser debatido sobre o suicídio com seriedade, e não ignorado. Sei que não é nada fácil falar com qualquer pessoa sobre suicídio. Porém para lidar com este tema que é complexo, devemos nos apropriar com conhecimento.

“Parece simplesmente não existir nenhuma luz no fim do túnel.”

“Nada mais parece fazer sentido, há apenas uma dor tão pesada que carrego, e que não consigo mais suportar…”

“Não aguento mais viver assim, eu gostaria de viver, mas não assim…”

“Não há mais nada que eu possa fazer, seria melhor morrer…”

Esses são alguns dos pensamentos que geralmente passa na cabeça de quem está considerando o suicídio com uma saída.

Por que Acontece o Suicídio?

Está é uma pergunta que muitos ficam perplexos e sem compreender. Calma, vamos explicar. Para algumas pessoas o desespero beira o insuportável. A cada dia, o sofrimento, físico ou emocional, fica mais intenso. E viver torna-se um fardo pesado e angustiante. Sua dor parece incomunicável. Por mais que você tente expressar a tristeza que sente, ninguém parece escutá-lo ou compreendê-lo. A vida perde o sentido. O mundo ao seu redor fica insosso. Você sonha com a possibilidade de fechar os olhos e acordar num mundo totalmente diferente, no qual suas necessidades sejam saciadas e você se sinta outro. Mas será que a morte é solução?

Atire a primeira pedra quem nunca pensou em morrer para escapar de uma sensação de dor ou de impotência extremas. Parece comum ao ser humano experimentar, pelo menos uma vez na vida, um momento de profundo desespero e de grande falta de esperança. Os adjetivos são mesmo esses: extremo, insuportável, profundo. Mas, aos poucos, os seus sentimentos e ideias se reorganizam. Suas experiências cotidianas passam a fazer sentido novamente e você consegue restabelecer a confiança em si mesmo. Você descobre uma saída, procura apoio, encontra compreensão. Aquele desejo autodestrutivo, aquela vontade de resolver todos os problemas num golpe só, se dilui. E você segue adiante.

Muitos, no entanto, não conseguem encontrar uma alternativa. O suicídio, para esses, parece ser uma saída para uma vida aparentemente sem sentido, para um presente pesado demais ou para um futuro por demais amedrontador. E eles se matam.

O suicídio continua sendo tabu, motivo de vergonha ou de condenação, sinônimo de loucura. Assunto proibido na conversa com filhos, pais, amigos e até mesmo com alguns terapeutas. Mas as estatísticas mostram que o suicídio precisa, sim, ser discutido. E ao contrário que muitos pensam, falar sobre isso de forma correta não irá incentivar a cometer o suicídio.

 

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Problema de Saúde Pública

Trata-se, além de uma expressão correta de sofrimento individual, de um sério problema de saúde pública. Segundo o mais recente relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 804 mil pessoas se mataram no ano 2012 em todo o mundo. Uma taxa de 11,4 para cada 100 mil habitantes. Isso significa um suicídio a cada 40 segundos. A “violência autodirigida”, como o suicídio é classificado pela OMS, é hoje a 14ª causa de morte no mundo inteiro. E a terceira entre pessoas de 15 a 44 anos, de ambos os sexos. Não pode mais ser ignorada.

Muitos casos de suicídio são claramente mascarados nas estatísticas oficiais. Suicídios de crianças tidos como morte acidental ou acidentes de automóvel. Causados por jovens que dirigem alcoolizados e em alta velocidade. Para os especialistas, esses são, sim, atos suicidas. Segundo a psicóloga Ingrid Esslinger:

“Se você investigar a vida dessas crianças e jovens semanas ou meses antes da morte, pode identificar sinais de que algo não ia bem”

Fatores de Risco

E segundo o psiquiatra e psicanalista Roosevelt Smeke Cassorla, um dos maiores especialistas brasileiros em suicídio:

“Todos já pensamos em suicídio em algum momento na vida. É um pensamento humano. Se não desejamos nos matar, ao menos cogitamos morrer. Morrer para escapar do sofrimento, para nos vingar, para chamar a atenção ou para ficar na história… Mas resolvemos continuar vivos e melhorar as nossas condições de vida. O suicídio, então, soa como um desatino. A pergunta que fica é: por que algumas pessoas desistem e outras não?”

Por trás do comportamento suicida há uma combinação de fatores biológicos, emocionais, socioculturais, filosóficos e até religiosos que, misturados, culminam numa manifestação exacerbada contra si mesmo. Existem causas imediatas que motivam. Como perda do emprego, fracasso amoroso, morte de um ente querido ou falência financeira. E esses motivos agem como o último empurrão para o suicídio. Porém, ao se analisar as características psicossociais do indivíduo, é possível descobrir motivos, que o auxiliaram a estruturar o comportamento suicida. Sendo demonstrada pelo estilo de vida e personalidade.

Fenômeno complexo, o suicídio configura um assassinato, em que vítima e agressor são a mesma pessoa. O psiquiatra José Manoel Bertolote explica a definição de suicídio:

“O suicídio implica necessariamente um desejo consciente de morrer e a noção clara de que o ato executado pode resultar nisso. Caso contrário, é considerado morte por acidente ou negligência”

O fato de estar consciente de que vai efetuar um ato suicida não elimina, no entanto, o estado de confusão mental que o indivíduo experimenta momentos antes da ação. Normalmente, o sujeito não sabe se quer morrer ou viver. Se quer dormir ou ficar acordado, fugir da dor, agredir outra pessoa ou, de fato, encontrar o mundo com o qual fantasia. O suicídio ocorre então, num instante em que a pessoa se encontra quase fora de si, fragmentada. Com os mecanismos de defesa do ego abalados e, por isso, “livre” para atacar a si mesma.

Dados da OMS indicam que o suicídio geralmente aparece associado a doenças mentais. Sendo que a mais comum, atualmente, a depressão, responsável por 30% dos casos relatados em todo o mundo. Entre os subtipos, a depressão bipolar, parece ser a de maior risco. O alcoolismo responde por 18% dos casos de suicídio, a esquizofrenia por 14%. Os transtornos de personalidade Borderline e a personalidade anti-social, por 13%. Os casos restantes são relacionados a outros diagnósticos psiquiátricos.

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Estudos feitos com base em entrevistas com amigos, familiares e médicos do suicida, mostram que mais de 90% das pessoas que se mataram no mundo tinham alguma doença mental. Entretanto, doenças psiquiátricas não são condição suficiente para o comportamento suicida. Pois que outros fatores, como emocionais, socioculturais e filosóficos, também entram em jogo. Na verdade, essas doenças provocam uma vulnerabilidade maior ao suicídio.

Sabe-se também que indivíduos com alteração no metabolismo da serotonina, apresentam maior risco de suicídio que os demais. Quanto maior a intencionalidade suicida e mais letal o método usado, menor a função cerebral da serotonina. Existe evidências de que a serotonina inibe o comportamento violento, agressivo e impulsivo. E a decisão final para cometer o ato suicida costumam ser determinadas por impulso. Portanto, os fatores biológicos são particularmente importantes para a decisão de querer morrer.

Casos de suicídio numa mesma família, é um fator de risco. Assim como filhos de pais depressivos teriam uma predisposição maior à doença. Por isso, muitos especialistas incluem os parentes de um suicida no grupo de risco. Mas, no caso de padrão familiar para o suicídio, tem força por ser modelo negativo naquele núcleo social. Por exemplo, filhos podem se inspirar na solução que pais suicidas encontraram. E dessa forma, usar a morte como saída para um conflito.

Outros Fatores de Vulnerabilidade

Você pode argumentar que muita gente se vê em situações de grande desespero, mesmo assim, não busca o suicídio. O que faz a diferença? Na verdade, não existe uma personalidade suicida, existe, sim, uma vulnerabilidade emocional. Que pode ser trabalhada com o apoio de um parente, um amigo ou um psicoterapeuta.

Quem tem uma estrutura de ego frágil, não consegue suportar uma grande perda ou um momento de crise e, num impulso, acaba cometendo o suicídio. Ego, neste caso, significa o “eu de cada um”, ou seja, o que caracteriza a personalidade de cada indivíduo. E ele se constitui a partir dos primeiros vínculos afetivos. Do modo com que o bebê foi cuidado pelas figuras de apego e da educação que a criança recebeu. Um ego fraco não tolera a frustração, não tem capacidade de espera. Não suporta lidar com a impotência, com os limites e com os “nãos” que a vida impõe.

Embora as mulheres sejam mais propícias a ter pensamentos suicidas que os homens, as taxas de suicídio masculino são mais elevadas. E os métodos que eles usam são mais definitivos e violentos, como uso de arma de fogo e enforcamento. Em média, ocorrem cerca de três suicídios masculinos para um feminino. Com exceção de algumas regiões da Ásia.

 A adolescência e a velhice são os dois momentos com risco tanto para a ideação como para o ato suicida, por razões diferentes. Na velhice, os motivos com frequência se devem à depressão, a sentimentos de rejeição e abandono. E a dificuldade de aceitar certas enfermidades dolorosas e incapacitantes, como o câncer. Já na adolescência, os problemas são de conflito familiar, dificuldades de identificação. Sentimentos de perda ou de inferioridade, de baixa autoestima. Em casos específicos de personalidades com tendências depressivas e de isolamento, podem se associar e resultar em tentativas ou em atos de suicídio.

De acordo com Diego De Leo, diretor da Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio:

“O suicídio é um ato privado que não representa somente uma violência contra si mesmo. Mas também contra mais, pelo menos, seis pessoas. Elas são forçadas a conviver com os sentimentos de vingança, vergonha, culpa, sofrimento psicológico, medo de enlouquecer e de também cometer o suicídio”.

 

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Pedido de Socorro

É importante não menosprezar o motivo de um suicida potencial. Pois a angústia existencial do suicida sempre vai fornecer justificativas para a sua morte. Ele sempre poderá enxergar a vida sem sentido ou ver prevalecer em si um sentimento neurótico de desvalia, derrota e de baixa autoestima. Daí a criação de fantasias em torno da morte. Como se trata de um fenômeno pouco entendido e também considerado tabu, o suicídio geralmente é recriado de acordo com as expectativas do indivíduo. O suicida não pensa, por exemplo, que vai se decompor e virar pó.

Sobre as tentativas de se matar, elas são vistas como um grito por ajuda. Sintoma de uma falha tanto no sistema familiar quanto no grupo social. Segundo a psicóloga Denise Gimenez Ramos:

“O indivíduo não consegue pedir socorro de outro modo, então opta por um ato extremo… Por que ele não foi ouvido? Todos dão conselhos, mas ninguém ouve o que ele tem a dizer. Esse indivíduo, portanto, fica com a impressão de que não existe para o mundo”.

Incapazes de comunicar a própria dor, os suicidas recorrem a algumas fantasias para justificar a si mesmos a autodestruição. A busca de uma outra vida é uma das mais comuns. O indivíduo enxerga no suicídio a oportunidade de interromper uma existência infeliz e recomeçar. Com uma nova chance para acertar. Matar-se também pode ser um jeito de acelerar o reencontro com pessoas queridas já mortas. Outras fantasias comuns acerca do suicídio: gesto de vingança ou rebeldia, castigo e autopunição.

O que fazer?

No núcleo familiar e comunitário, a melhor prevenção é falar sem temores sobre suicídio. E saber identificar os pedidos de socorro das pessoas próximas. Não é preciso dar uma solução para os problemas do outro, deve-se apenas aprender a ouvir. Muitas pessoas encontram as soluções dentro de si quando conversam e refletem sobre seus conflitos e emoções.

Neste modelo, existe o serviço de prevenção ao suicídio do Centro de Valorização da Vida (CVV). Uma entidade de atendimento humanitário criada há 40 anos e presente em todo o Brasil. O CVV segue os moldes dos Samaritanos, de Londres. Todos os voluntários são treinados para ouvir seus interlocutores. Podendo ser por telefone, carta, e-mail ou pessoalmente. Sem nenhum tipo de julgamento e respeitar sua decisão, mesmo que seja a de cometer o suicídio. É respeitado o sofrimento de quem telefona. A pessoa que entra em contato tem a liberdade de falar sobre o que quiser durante o tempo que for necessário. Mas todo atendente procura ajudar a revalorizar a própria vida do usuário.

O serviço atende, em média, 1 milhão de ligações por ano. Isso revela a necessidade que as pessoas têm de falar sobre seus conflitos. Quando o assunto é suicídio, abrir-se pode ser terapêutico. Isso porque o que motiva o suicida é a falsa ideia de que sua vida não tem mais valor para si. Nem mesmo nem para os outros. O verdadeiro desafio parece fazer com que as pessoas percebam que sempre existe saída. Não importa a situação. Que há como se reinventar e trabalhar em si mesmo aspectos de que gosta menos. Que nossa vida é importante para os outros também. E que sempre há alternativa, mesmo que, a princípio, seja dolorida. Afinal, a única coisa para a qual não há remédio é a morte.

 

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Atendimento Psicológico

O suicídio, também, vem da dificuldade de entrar em contato consigo mesmo. O autoconhecimento dá trabalho. Exige empenho e tolerância à frustração, e muitos não o têm. O acompanhamento individual, ou psicoterapia, com um psicólogo, auxilia neste processo. O psicoterapeuta procura criar um espaço em que se possa sentir seguro, compreendido e auxiliado. Em especial na busca de outras opções ou soluções para as suas dificuldades. Nesse espaço, pode procurar-se:

  • Validar a vivência de desespero, tristeza e sofrimento emocional enquadrando-a na sua história de vida presente, passada e futura;
  • Compreender os motivos que o levam a colocar o suicídio como uma opção;
  • Olhar para os seus problemas sem os julgar, dividi-los em partes menores para que possam ser trabalhados separadamente;
  • Analisar os pensamentos que dão convicção de que não existem outras alternativas de pôr fim à dor além do sofrimento;
  • Discutir a relação entre o que pensa, o que sente e como reage;
  • Pensar em novas formas de lidar com os problemas. Explorar e criar alternativas de solução que possam existir na sua vida. Que neste momento não estejam facilmente visíveis;
  • Desenvolver maneiras eficazes e adequadas de comunicar os seus problemas aos outros;
  • Promover a discussão de cenários futuros mais satisfatórios.

Este é um trabalho em conjunto. Em muitos casos é necessária também a intervenção medicamentosa prescrita por um psiquiatra. Além da colaboração do paciente, psicólogo e alguns casos do psiquiatra, é interessante contar pessoas próximas. É possível envolver familiares e amigos, se isso for vantajoso. Os exemplos de trabalho mostrados acima, são apenas orientadores. Pois todo o processo de ajuda é centrado no sujeito. Em especial nas características e na sua forma de ver o mundo. O atendimento com profissional da psicologia, procurar auxiliar na reelaboração da estrutura psíquica. Ou seja, o paciente terá melhora não só no seu presente, como também no seu futuro.

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